Animais e humanos
Como humanos, nós sentimos a necessidade de nos distinguir claramente dos
outros animais. Nós nos colocamos em uma categoria acima, desenvolvida, racional e
complexa. De fato, nenhum outro animal é capaz de criar sistemas e sociedades tão
complexos quanto os nossos, e a lembrança de que temos semelhanças com criaturas tão simples e “irracionais” nos é desconfortável.
Eu tive medo de cachorros pelos primeiros oito anos da minha vida. Não sei por quê. Acho que o medo é uma reação normal ao ver uma criatura de aparência tão diferente da nossa, mas que é tão viva quanto nós, que tem olhos como os nossos. Perdi o medo por causa da minha cachorrinha, que chegou na minha casa sem que eu esperasse. Vira-lata, de pelos pretos e tão magra que dá para ver suas costelas. Eu demorei alguns meses para conseguir me acostumar com ela. Ela é arisca, meio solitária, late se tentam pegá-la no colo e se assusta com qualquer barulho ou movimento brusco. Do jeito que eu cresci com ela, percebo como nós influenciamos uma à outra, e me surpreendo em ver como somos parecidas. Não se sabe exatamente se os animais têm consciências como as nossas. Acho que a consciência é uma experiência individual demais para a compreendermos em outros, quem dirá em animais. Mas a possibilidade de eles perceberem o mundo de forma aproximada à que nós o percebemos me faz questionar o que significa ser humano. Para mim, é fácil acreditar que a minha cachorra tenha consciência como eu.
De uns tempos para cá vem surgindo um questionamento sobre o fato de tantas pessoas parecerem ter mais empatia por animais do que por outros humanos. Realmente, parece estranho que tantos de nós comprem cachorros de raça e gastem uma fortuna nas melhores condições para eles quando milhares de humanos vivem nas ruas. Mas a irracionalidade dos animais faz com que seja mais fácil nos afeiçoar a eles. É mais fácil olhar para baixo e simpatizar com um serzinho de pelos fofos e olhos como os nossos do que olhar para frente e encarar nossos iguais, encarar a nós mesmos. Da mesma forma, porém, os humanos acham mais fácil praticar a violência contra esses serezinhos do que contra nossos semelhantes. Nós somos animais contraditórios.
Mariana Moraes Carneiro