Olimpíada de Escrita Criativa

Gabriela Bavaresco é minha aluna no Terceirão e, dedicada como ela só, participa do clube de Produção Textual da UFRGS. Uma overdose de Maria Tereza nas quartas. Não pense que meu conhecimento de Gabriela resume-se a uma tela de computador. Não. Nós nos conhecemos quando ela estava no 8º ano e a turma viajou para São Paulo. Eu fiquei na van das gurias. Reencontrá-la na 3ª série do Ensino Médio e nos clubes da UFRGS – Português e Redação – tem sido um enorme prazer. Perceber que aquela menininha tornou-se uma adulta consciente e capaz de se expressar enche o coração da profe de felicidade. Vale, ainda, ressaltar que – depois de uma discussão online sobre a importância do tempo –, Gabriela produziu seu primeiro texto atendendo às exigências da Universidade Federal. Para além da nota (aliás, excelente), a certeza de que essa menina vai longe, vai além do vestibular, do Enem, da graduação…

Maria Tereza Faria
Professora de Língua Portuguesa
Coordenadora da área de Linguagens – JPSul

Implacável e Infindável

De acordo com a lógica da escola literária barroca, o tempo é fugaz e implacável, motivo pelo qual devemos aproveitar ao máximo a curta duração da vida. Entretanto, com o avanço do sistema capitalista, a própria visão humana sobre o tempo deturpou-se, mostrando-se intrinsecamente atrelada ao dinheiro. Foi sob esse panorama que a psicanalista Maria Rita Kehl afirmou (indo ao encontro do pensamento do professor Antonio Candido) acreditar que a frase “tempo é dinheiro” foi construída em razão, principalmente, dos fundamentos capitalistas e representa, para ambos, uma inépcia, uma degradação do pensamento humano.
Sob essa ótica, no filme “Sociedade dos poetas mortos”, por exemplo, o professor John Keating apresenta a seus alunos a expressão “Carpe diem”, – do latim,aproveite o dia – na esperança de estes se inspirarem a usar seu tempo de forma significativa para, em suas palavras, “fazer suas vidas extraordinárias”. A ideia proposta pelo termo “Carpe diem” não se limita apenas ao seu significado literal, mas a algo muito maior e intangível: à de, de fato, viver intensamente, priorizando suas vontades, pois, no final, tudo tem um fim, exceto o próprio tempo. Sendo assim, se o tempo é maior do que a própria existência, é, portanto, completamente incoerente e impiedoso limitá-lo ao dinheiro.
Em contrapartida, desde o início da industrialização até o desenvolvimento da sociedade moderna atual, esta, por ter de passar maior parte da vida devotando – ao sistema que a oprime – sua mão de obra para garantir sua subsistência, começou a enxergar seu tempo relacionado ao dinheiro, partindo de um raciocínio de que mais horas de trabalho significam mais dinheiro e mais dinheiro, por sua vez, significa mais tempo para lazer. Assim, os indivíduos submetem-se, em um paradoxo, a trabalhar cada vez mais a fim de conquistar mais tempo livre, mantendo as rodas do sistema funcionando. Todavia, na Idade Média, em que o modo de produção era mais natural e intuitivo, respeitando-se as limitações humanas e seguindo um fluxo menos acelerado, essa associação não existia, visto que a labuta não era vista como forma exclusiva de sobrevivência. Dessa forma, o tempo era considerado superior e sobrenatural, pertencente às mãos divinas, e não materiais, como entendido por Kehl.
Em suma, a associação que se faz entre tempo e dinheiro e a ideia de que ambos são complementares não é correta ou mesmo justa, pois o tempo é muito maior do que o capital. Dessa forma, a busca incessante por riqueza e lucro cegou o homem, levando-o a limitar ao meio material, inclusive, a mais ilimitada das entidades, a qual permeia a própria existência universal.

Gabriela Bavaresco – 3ª Série EM JPSul – 2021

Scroll to Top